Taibo Bacar, um estilista em Maputo

“Eu nasci para a moda”

A nova colecção de Outono/Inverno 2013 de Taibo Bacar é toda uma celebração da tradicional capulana moçambicana que se quer ocidentalizada, com pretenções de high fashion. Taibo fá-lo com consciência e é hoje uma referência das semanas de moda mais importantes do Continente Africano.

Taibo Bacar nasceu em Moçambique em 1985 mas não foi na moda que iniciou os seus estudos. Inicialmente decidiu estudar Tecnologias da Informação, curso que trocou pela formação em Gestão de Empresas. No entanto, a sua insatisfação não se ficaria por aqui. Filho de uma costureira, cresceu ao ritmo das máquinas de costura, tecidos e esboços que desenhava para algumas clientes da mãe.

Durante cinco anos Taibo andou a navegar entre cursos universitários e a vontade de se reencontrar nos desenhos que preenchiam os seus cadernos escolares de infância. É exactamente no percurso universitário, aliado ao sonho de tornar-se criador de moda, que decide apostar neste mundo, vendo nele uma oportunidade de negócio.

Apesar desta determinação, Taibo teria pela frente uma dificuldade formativa imensa, já que o ensino de moda seria praticamente inexistente em Maputo. Decide por isso rumar a Espanha e fazer pequenos cursos de modelagem, desenho técnico, corte e tecidos no Instituto Marangoni.

Taibo cria a TAIBO BACAR em 2007, apresentando actualmente duas linhas em simultâneo em cada colecção: a TB (prêt-a-porter) e a TAIBO BACAR couture (alta costura).

O seu processo criativo baseia-se numa primeira fase na escolha da matéria-prima sem a preocupação de seguir tendêndias. Há um apaixonar-se pela tela que determina o design, uma comunicação inspiracional que determina as cinco primeiras peças que vão definir o resto da colecção.

“Eu falo com as minhas telas, pregunto-lhes o que elas querem e dou-lhes vida” (in Nigerian Tribune 08.06.2013). 

Sedas e mousselines de seda; renda guipour e a tradicional capulana entram em cena para se misturarem entre si, em composições clássicas que abraçam a mulher moçambicana da classe média-alta, que valoriza a sua cultura e que gosta de vestir de forma ocidental.

Esta é uma colecção clássica em todos os sentidos. A modelagem não é complexa, mas contrasta com o trabalhado padrão da capulana usada: “A capulana é uma pérola no meu país no que diz respeito ao tecido tradicional. O padrão escolhido para esta colecção cuidada e limitada foi um bom e raro achado. Tento sempre esforcar-me pela excelência, assim que a ideia de reinventar a redesenhar este padrão já me passou pela cabeça. Nao fiquem por isso surpreendidos se num futuro próximo virem um novo e moderno design de capulana by Taibo Bacar.” (Rossio Mag 11.07.2013)

O estilista inspirou-se neste padrão depois de uma viagem efectuada a Roma. De resto e dependendo das colecções, Taibo compra os tecidos em Moçambique, China ou África do Sul.

Numa altura em que o ensino de Design de Moda em Maputo é mais ou menos um ponto assente através de plataformas como o ISARC, o Instituto Superior de Ciências Tecnológicas de Moçambique e a Escola Portuguesa de Moçambique, estão criadas algumas condições para um emergir de novos designers moçambicanos formados em território nacional: “É importante que este campo de estudo/carreira seja alimentado e levado a sério desde tenra idade. Os pais são hoje mais receptivos a deixar que os filhos estudem moda ou artes no geral. De outro modo, este tipo de carreira não poderá ser levado a sério pela maioria das famílias africanas. É importante levar a moda a sério e considerar o seu lado empresarial prudentemente.” (Rossio Mag  11.07.2013)

Taibo é um estilista confiante, visualiza constantemente os seus sonhos que ver realizados. A comunicação da marca é bastante afirmativa e positiva. É um estilo, não é um defeito. O seu discurso é claro, directo às suas clientes que como diz são: sofisticadas, seguras de si, com qualidade de vida; uma mulher que valoriza a sua silhueta e quer conquistar.

A sua participação em 2011 na Milan Fashion Week – Moda Donna foi um palco importante para o contacto com as marcas de moda bem estabelecidas a nível internacional: “Foi uma honra conhecer alguns dos designers mais famosos do mundo como Jean-Paul Gaultier, Gucci, etc. Coco Chanel uma vez disse: ‘Para ser insubstituível, deve-se sempre ser diferente’. Eu acredito que transpareci esta ideia em Milão. Houve também alguns convites para estágios em algumas casas de moda importantes. No geral, foi uma presença positiva.” (Rossio Mag  11.07.2013)

Paralelamente a este work in progress, o estilista trabalha noutros projectos. Actualmente está a desenhar algumas peças para a nova colecção de mobiliário da empresa luso-moçambicana EMOL: a Taibo Bacar – Signature Furniture, que será lançada na semana da moda na África do Sul em finais de Outubro deste ano. Colecção que também será lançada em Moçambique, Angola e Portugal: “Estou muito entusiasmado com este projecto. Tem sido um trabalho intenso a nível conceptual e do design, que finalmente está a dar frutos. Foi um desafio libertador, que não comprometeu a minha identidade. Temos prospecção de negócio em linha, incluindo ramificações em Angola. Existe uma enorme procura no mercado, à espera de Taibo Bacar.” (Rossio Mag  11.07.2013).

Também o galardoado fotógrafo Per-Anders Pettersson está a trabalhar num projecto com Taibo: “Pettersson está a realizar um projecto maravilhoso sobre a Moda Africana e os seus designers. O meu trabalho chamou-lhe a atenção e decidiu voar até Maputo para fazer um documentário sobre mim. Estou a gostar do seu olhar, da sua história e de como está a capturar o sucesso da marca Taibo Bacar. Conseguiu fazer fotografias diferentes e eu não poderia estar mais feliz ao ser fotografado na minha loja preferida de tecidos. Quando estou lá sinto-me como a ” Alice no País das Maravilhas” – Eu adoro tecidos porque são a maior fonte de inspiração no meu trabalho. Para além disso, Pettersson também fez um editorial para várias revistas de moda europeias e cobriu um evento/exposição que montámos em colaboração com o artista moçambicano Gonçalo Mabunda.” (Rossio Mag  11.07.2013)

A tónica mais interessante desta colecção é sem dúvida o tecido capulana escolhido. É um revisitar das ‘mamanas’, uma homenagem ao tecido tradicional do país que é ele mesmo um signo, ritualizado em vários registros e hoje modernizado – ou a capulana como um elemento que pode e se quer fashionable | e essa tal modelagem ocidental do vestir africano. 

Numa altura em que o governo moçambicano estabelece protocolos com a Indonésia para o investimento têxtil no país, em que o Japão é e será um parceiro privilegiado de negócios, sobretudo no fornecimento de tecnologia e assistimos à revitalização da Riopele pela MCM (Mozambique Cotton Manufacturers) e à criação de um pólo industrial em curso na província de Marracuene – podemos ter esperança numa Indústria Textil moçambicana mais dinâmica que incentive novos empresários e futuros designers?

Taibo acredita que é possível que as marcas africanas penetrem no mercado internacional das marcas de moda, mas primeiro é preciso fortalecer laços e parcerias mais efectivas entre os profissionais do Continente Africano.

O palco está criado. Está a ser criada uma associação de estilistas moçambicanos pela mão de Wacelia Zacarias. A MFW (Mozambique Fashion Week) é um evento cada vez mais forte, já com oito edições e alguns workshops formativos. O AFW (Angola Fashion Week) vai na sua 14a edição, para não falar da visibilidade da South Africa Fashion Week. Taibo Bacar já fez o circuito destes três eventos e seguramente que repitirá.

Quando falámos com o estilista sobre o futuro, Taibo comentou-nos: “Actualmente o meu estúdio está repleto de telas, é uma loucura! O meu mood board está cheio de esboços, o que é perfeito para começar a minha nova colecção S/S14. Estou com muito trabalho. Sim, estão a acontecer várias coisas no mundo de Taibo, nós estamos preparados para chegar a outros patamares, seja na producção, packaging, retailing, venturing ou noutros mercados. O plano está lançado. Por isso.. fiquem atentos.” (Rossio Mag  11.07.2013).

Taibo Bacar não quer ser só mais uma marca de moda africana. Segundo as palavras do estilista à revista Alizé la vie Magazine na edição de Maio-Junho deste ano, o estilista diria: “Eu visualizo a minha empresa em pleno crescimento e expansão noutros continentes. A marca africana número um no mundo.”

Numa altura em que os prints on prints estão na ordem do dia, o uso da capulana em colecções só tem a beneficiar na sua visibilidade internacional.

Algumas peças que Taibo Bacar levou à Milan Fashion Week S/S11

Best Established Designer – Mozambique Fashion Week in 2008

Emerging Designer of the Year – Africa 2012

Gold Price World Quality Commitment – Paris 2012

Top 10 Best African Designers – Paris 2012

A Rossio Mag agradece a disponibilidade de Taibo Bacar e Makhotso Simone por toda a informação relacionada com o estilista.

Texto Maria Falé

Nota: Este mesmo artigo foi publicado na ELLE SOUTH AFRICA a 23 de Agosto de 2013: http://www.elle.co.za/eye-on-taibo-bacar/ (versão resumida)

15 comments

  1. Chalamanda

    Boa tarde, Gostaria de parabenizar o Taibo pelo gosto, a arte de bem vestir e ao mesmo tempo pedir ajuda. Tenho uma filha com os seus 11 anos, aos 3 anos descobri que ela tem gosto em desenhar peças de roupa. Eu coleccionei alguns desenhos e gostaria que voçê apreciasse. Ela precisa de um empurrãozinho. Esta é a unica maneira que eu encontrei de a motivar, procurando um profissional.

  2. Agostinho Bento

    Continua vai em frente. Gosto tanto de moda, eu sou mas um futuro estilista. Já tive oportunidade de estar na Sara de Almeida a fazer corte e costura, desenho de moda. Sou muito espira na zona da praia de xai-xai. Meus parabéns Taibo, sou tua fã.

  3. silvia Bartolomeu

    Nunca tive duvidas, que nasceste para moda. Pude acompanhar o teu crescimento e sinto-me lisonjiada pelo facto de teres sido tu a fazer o meu vestido de casamento. Foi um vestido dos sonhos. para alem do trabalho extraordinario que tens feito, adoro a tua modelo “Taty” quem diria! Estao todos de parabens. Continuem nesse caminho que chegarao muito mais longe.

  4. Gilberto Mendes

    Espetacular! Há no Taíbo muito futuro. O tempo encarregar-se-á de mostrar que estamos em presença de um diamante em bruto. A sua lapidação só está no inicio.

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