A Dellal Usaria?

A colecção Rio Deco de Adriana Degreas apresentada na SPFW de Março passado, marcou uma viragem na carreira da designer de beachwear, assim como do futuro da própria marca no mercado internacional.

Desde 2010 que Adriana nos presenteia com colecções que traduzem ambientes de glamour, remetendo-nos para um lifestyle recheado de elegância e sofisticação, onde a modelagem adquire um papel primordial na identificação da filosofia da marca.

Adriana não desenha beachwear para o mercado maisntream brasileiro. Não está interessada em seguir tendências de modelagem, cores e ou estampagens que vão na linha do beachwear ‘clássico’ brasileiro. As peles super bronzeadas também não são um discurso corrente na sua estética.

Esta última colecção que apresentou em Março foi a mais equilibrada e coerente a nível estilístico desde 2010. É um afirmar definitivo de uma modelagem maior como identidade da marca e que seguramente irá influenciar as tendências do mercado nacional de beachwear. A introdução acentuada das transparências em tule marcam esta colecção, assim como os cetins compactos, os pretos, brancos, vermelhos e rosas pontuais com a coroação da sofisticação na túnica em prata (ou a síntese inevitável do revestimento arquitectónico comum nos edifícios de Art Deco, quase todos pintados com tinta revestida a pó de mica, que lhes conferia um efeito feérico cintilante?).

A inspiração na Art Deco ou Arquitectura Deco é bem evidente nesta colecção pelo uso de linhas geométricas e austeridade decorativa (ou a ausência de tecidos estampados). É a celebração de um estilo artístico de transição para a Arte Moderna, importado desde França e que marcou os anos 20 e 30 da arquitectura brasileira cosmopolita. Estilo amplamente representado em São Paulo, cidade onde a estilista tem o seu atelier e onde imperam exemplos icónicos como o Banco de São Paulo (Álvaro Botelho), a Biblioteca Mário de Andrade ou o Jockey Club.

O Rio de Janeiro é outro dos pontos nevrálgicos deste estilo artístico, tendo mais de 400 edifícios do género, distribuidos entre prédios públicos e residênciais (Edifícios Itahy, Petrônio, Biarritz, entre outros).

Degreas celebra o estilo da simetria e da axialidade. É o glamour ou a boemia de inspiração francesas traduzidas no uso de listras, das linhas rectas, nas peças de cor única e compacta, transmitindo-nos uma certa ideia de fortaleza e integridade femininas que os pilares e frontões da Art Decó importaram da arquitectura clássica. Os óculos decorativos arquitectónicos foram sinteticamente transportados para as túnicas semi-transparentes e/ou integrados em fatos-de-banho | maiôs e tops. É o coroar da sofisticação e da elegância de uma mulher culta, moderna, segura, e em que o olhar blazé das modelos sugere a tal contemporaneidade e beleza etérea (ou inacessível?). Não sei se me foi transmitida a sensação de uma mulher boémia, frequentadora das festas de elite dos anos 50 cariocas. As modelos de pele translúcida pareceram-me demasiado sóbrias e elegantes, comedidas. Sobrou o glamour sofisticado e faltou uma certa leveza boémia. A escolha dos sapatos não foi a mais feliz, mas não é fácil calçar um desfile de swimwear, sobretudo quando se pretende homenagear uma época.

Estamos perante um produto de beachwear de luxo ou de Bain Couture como a designer lhe gosta de chamar. A solução híbrida das peças, que podem ser usadas de dia ou de noite e em diversas situações sociais, confere ao produto um carisma multifacetado e um atractivo maior de usabilidade. Adriana desenha fatos-de-banho para a praia, piscina ou bodies e kafkans, em que  a textura dos materiais usados se aproxima cada vez mais do underwear. Pessoalmente, e à parte da modelagem corajosa, esta é a tónica mais interessante. Um beachwear que também pode ser um underwear.

Com esta nova colecção a marca inaugura uma nova fase: a da exportação e da preocupação em colocar o produto em lojas de luxo de referência internacional. A sua recente colaboração com a marca Havaianas colocou-a na montra do Le Bon Marché do mês passado. A presença das peças em lojas multimarca de luxo como a Harrod’s ou os Hotéis Eden Rock em St. Barths e Calypso em Miami, traduzem o cuidado que a marca está a ter no posicionamento do produto face ao publico alvo internacional. A própria campanha de 2014 tem a direcção criativa de Cecilia Dean da revista Visionaire, com produção nos Hamptons. Digamos que  é a descolagem para a internacionalização definitiva e o posicionamento internacional para o cumprir de um sonho da designer: abrir uma loja da marca em Paris.

Adriana tem um estilo e estética bem definidos. Embora a paleta de cores das colecções seja cambiante, o glamour retro é uma caraterística mais ou menos constante nas suas colecções desde 2010. O seu background familiar (a pequena tecelagem do avô ou o antiquário da avó que vendia roupas de alguns estilistas de referência), cultivaram o seu contacto prematuro com a moda e as matérias-primas. Degreas começou a interessar-se pela moda a partir dos inícios dos anos 90. O facto de estar casada com um profissional da mesma área ajudou a um contacto privilegiado e empírico com esta indústria. O seu processo criativo começa com a tecelagem, dedicando-se em seguida à modelagem. Numa fase posterior incide nos croquis e no desenvolvimento das estampagens nos tecidos e consequentes provas piloto.

Num mercado como o das marcas de moda, altamente competitivo a nível nacional e internacional, não basta ser criativo. A sazonalidade das colecções obriga a uma criatividade sobre pressão. Neste caso e por enquanto, Adriana Degreas tem obedecido a essa tal sazonalidade dos runaways. Para a designer é importante estar perto das suas clientes. Ter tempo é um luxo e neste caso é primordial, já que as marcas precisam de se humanizar e ultrapassar os moldes daquilo a que entendemos como o marketing clássico de moda. O instagram da marca é intimista, o que é positivo. Os clientes encaram cada vez mais as marcas como pessoas. Neste caso Adriana Degreas tem um duplo papel, mas é na pessoa e nos seus gostos ou inspirações que reside a ponte da aproximação ao cliente de sempre ou à fidelização dos novos.

A sua maior musa é a Andrea Dellal: “Ela é moderna, informada, tem personalidade, frequenta a praia, é avó e ainda assim continua circulando no mundo da moda”.

E por isso a designer muitas vezes se pregunta: A Dellal usaria?

Claro que sim.

Texto Maria Falé

Desfile SPFW RTW14 Adriana Degreas

Consulte todas as colecções da Adriana Degreas aqui

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